Meu avô estava “passando mau” e voamos para lá. Quando chegamos, percebi que havia gente demais para alguém que aparentemente apenas “passava mau” e então comecei a entender. Já desci do carro do seu Nilton chorando, acompanhada pela minha mãe e logo o Christian (nosso vizinho lindo e loiro, dono de maravilhosos olhos azuis e por quem vim a me “deslumbrar” no ano seguinte) veio me abraçando. Não teria melhor resposta para minhas perguntas, né? Não quis entrar em casa, mas foi inútil porque assim que bati os olhos nas pessoas que rodeavam a entrada de casa vi o corpo do meu vô sendo trazido para dentro de um carro. Lembro até hoje de seus pés, pálidos e imóveis, a única coisa que consegui enxergar, porque a Rose estava abraçada em mim e me tapava parcialmente a visão.
Mais doloroso que isso foi ver minha vózinha, em pânico e totalmente descontrolada, logo ela que era tão acostumada a ver isso todos os dias no hospital e que tinha um jeitão que parecia ser capaz de se controlar mais que qualquer um ali... isso acabou comigo!
Depois soube que levaram ele para o hospital, porque minha avó aplicou vários métodos de ressussitação e conseguira um tímido sinal do coração. Mas não era nada, e quando eles voltaram mais tarde foi só para dizer que o velório seria no dia seguinte.
Aquela foi uma noite bem longa... não conseguia chorar, na verdade nem conseguia realmente assimilar a gravidade da situação. Acabara de perder a pessoa que era um pai para mim e não me tocava disso! Estava aparentemente anestesiada, sem noção das coisas... apenas me agarrei na Harpa Cristã e na Bíblia dele e assim fiquei por muito tempo, nem sei quanto, sentada no escuro na mesma sala em que provavelmente ainda naquela manhã ele havia orado - meu avô levantava pontualmente ás 6h, todos os dias, e antes de qualquer coisa se ajoelhava ali na sala e orava por muitos minutos, dizia ele que para agradecer por cada dia proporcionado e para dizer que estava preparado no caso de um dia não poder mais acordar...
Foi a Rose quem me tirou dali e me levou pro ar da madrugada, e no caminho entre a casa e o portão me falou de um livro muito bom chamado “ Violetas na Janela”, que explica para onde vamos depois que morremos e que é contada por uma menina que morre aos 19 anos de idade. Disse que depois que a poeira baixasse me emprestaria o livro para eu poder entender que a morte não é necessariamente o fim, mas sim o começo de uma nova vida, até melhor do que esta.
Minha mãe estava alheia a mim e a todos. Não a condeno, claro que compreendo que ela estava envolvida com muitas outras tarefas, como organizar a papelada para o enterro, acalmar minha avó e controlar a si mesma. Mas fiquei triste no dia seguinte, quando em pleno velório ela me disse que eu não havia chorado por pensar que iria ganhar uma herança. Nossa, aquilo me magoou muito, nunca havia pensado em ganhar nada, e hoje acredito que a maior herança que meu avô poderia me deixar ele deixou, foi minha educação. De qualquer jeito, muita gente deve ter estranhado o fato de eu não ter me emocionado, e sinceramente acho que foi melhor assim, porque depois de muitos outros livros espiritas após “Violetas na Janela” sei que o espirito precisa de paz para seguir seu caminho, se eu também estivesse tendo um troço, certamente embaçaria o atalho para sua nova vida... as vezes me pergunto se algum dia ele imaginou que haveria mais além desta vida, já que ele era evangélico, ou se na verdade sabia mais que qualquer um de nós e por isso mesmo rezava todo dia ao amanhecer.


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