Quando passei para a 5ª série, meu avô me matriculou num colégio particular, o Santa Tereza de Jesus (STJ).
Ansiosa por fazer novas amizades, acabei inventando uma vida nova pra mim, dizendo coisas incríveis e fantasiosas. Não demorou para o tiro sair pela culatra e eu ser taxada de pobre, mentirosa e caipira( puxava o “r” naquele tempo e quem me vestia eram os meus avós – até então eu nunca liguei para moda e coisas do tipo.).
Meus colegas e alunos de outras séries riam de mim e faziam brincadeiras de mau gosto, e não adiantava pedir para pararem ou reclamar para as diretoras. Comecei a andar com um pessoalzinho da 3ª série, a Paloma e uma outra garotinha que não recordo o nome. E a Janiene, da 7ª série, que não ligava para o que os outros diziam.
Até tinha umas gurias que tentavam se aproximar, a Giuliane, a Viviane e a Gabriela Pinheiro, mas tinha outras que andavam comigo só pra me zoar, como a Sílvia e a Marlova(com este nome, eu que devia zoar ela!).
Aquele ano foi um inferno. Detestava trabalhos em grupo porque eu sempre sobrava, e não conseguia mais prestar atenção nas aulas. Comecei a deixar as provas em branco e tirar zero em tudo, logo eu que nas etapas anteriores nunca tirava menos que 8. Lá a nota era dada por letras, mas logo percebi que I (insuficiente) também servia para “infeliz”, quanto mais se distanciava os MBs(muito bom) que tirei no inicio do ano.
Me apaixonei (será mesmo?) por dois garotos da sala. Primeiro foi o Lucas. Ele era uma gracinha, magrinho, cabelos pretos e cortado tipo chanel (mas não gay) e carinha de gurizinho. Apesar de saber que a Giuliane gostava um pouco dele não medi esforços para fazê-lo sentar ao meu lado na sala(sentávamos em duplas). Como ele não viria espontaneamente, falei com a professora Cláudia (de matemática e biologia) que a Sílvia conversava demais e que se eu sentasse com o Lucas melhoraria meu desempenho. Pois bem, ela resolveu fazer espelho-de-classe e colocou o Lucas ao meu lado. Ele detestou, é claro. Ficou se lamentando o 1º dia todo e nem olhava pra mim, mas eu nem ligava, tinha vencido. Depois de um tempo começamos a conversar e sei lá, nos demos bem. Acho que ele percebeu que apesar de eu ter a popularidade em alta (por um péssimo motivo) eu podia ser legal. Uma vez ele até me defendeu das piadinhas maldosa da Sílvia e da Marlova, que agora sentavam juntas e passavam a aula toda rindo de mim. Babacas! Acabou que o Lucas e eu começamos a conversar demais e a sora fez novo espelho-de-classe, desta vez para nos separar. Mas eu já nem estava mais dando bola para ele, apesar de ele ter sido bem legal. A bola da vez era o Bruno, que as gurias diziam que era estranho e tinha a cabeça quadrada, mas que era o palhaço da turma e eu sonhava em fazer parte da turma que andava com ele – os populares. Este nunca falou muito comigo, até me tratava melhor depois de um tempo, quando sentei com o Lucas, mas me anojei dele sozinha.
Tinha um garoto especialmente irritante chamado Tiago. Aquele ser não podia me ver que vinha atormentar, adorava se ver fazendo palhaçadas, o idiota. No começo ficava mau, com vergonha, depois parei de dar bola conforme as piadas iam ficando cada vez mais clichês.
Eu gostava muito da Giuliane e este era o ponto fraco em que a Silvia tocava quando queria me ferir. Uma vez ela estava me dizendo que iria falar para a Giu que eu tinha falado horrores dela e mais um monte de mentiras, fazendo ameaças claras em plena sala. Daqui a pouco chegou a Giuliane com a Viviane (que ouviu tudo e contou pra Giu, que era a melhor amiga dela) e deu uma “mijada” na Silvia. Nunca mais ela fez intrigas entre nós.
Conheci pessoas bem caricatas, como a Cristiane, uma loira enjoada com sobrenome difícil, com quem aprendi a palavra “patricinha”, e a melhor amiga dela, a Simone Thomé, que tambem era paty, mas bem menos arrogante e até simpática quando queria. Conversamos algum tempo, até fizemos um trabalho juntas se não me engano, mas acho que foi só pra mim ver que nem todo mundo era tã mal assim. Na verdade muitas meninas se aproximaram de mim naquela época, porque foi em 1997 que estourou a novela “ Chiquititas”, e todas éramos viciadas nela! Mas eu tinha muito mais material colecionável que elas, então ficavam perto de mim por causa disso. Até que montamos um fã-clube e elas resolveram juntar o material que cada uma tinha. Perdi muita coisa, e resolvi sair antes de extraviar mais...
Eu sempre fazia a feira-de-ciências do colégio com a Sílvia e era sempre um fracasso. Quando estavam preparando a última feira do ano (cuja nota eram os demais alunos da escola que davam e que pra minha antiga dupla sempre oscilava entre R (regular) e I, mas que agora definitivamente eu precisava dela pelo menos um B para não rodar) a Janiene e as pequenas da 3ª me aconselharam a fazer sozinha. Elas disseram que iriam me ajudar e até algumas gurias da minha sala colaboraram, como obviamente a Giuliane e a Gabi Pinheiro. A Janiene morava num apartamento ao lado do colégio e disse que me emprestaria uns bichinhos de plastico que ela tinha (o tema da feira era o ecossistema), que eu só precisava comprar uma folha de isopor para fazer a maquete e cola, erva de chimarrão (para fazer a grama), canetinha, cartolina e palitos de picolé(para as plaquinhas explicativas de cada ecossistema).
Combinamos uma manhã na biblioteca do colégio (estudávamos a tarde) e foram todas elas. Só pude montar a maquete até um pouco depois da metade, porque meu avô me esperava e eu não podia demorar. “tudo bem”, elas disseram, “a gente termina pra ti”. À tarde já era a feira e eu quase chorei ao ver a maquete perfeita quando elas me entragaram e me desejaram boa sorte.
A feira foi um sucesso e só recebi MB de todos os alunos. Mas o que me importava era que as meninas tinham se mobilizado para ajudar a “caipira pobre” num projeto que a salvaria de repetir de ano. Não salvou. Repeti em matemática. Meu primeiro grande fracasso escolar.
Também tirei proveito de tudo o que aconteceu naquele fatídico ano de 1997. Aprendi que não devemos destratar as pessoas por elas serem diferentes, e senti isso na pele, por isso nunca repeti tamanho erro. Também aprendi a separar pessoas individualmente, sem integrá-las somente num grupo. E aprendi anos mais tarde que as pessoas que me maltratavam sofrem de uma doença chamada bullying, e hoje realmente tento esquecer tudo pelo que passei. Aprendi que crianças podem ser cruéis se quiserem. Aprendi que é nessa fase em que precisamos de uma boa estrutura familiar e social, pois é justamente ai que estamos moldando nosso caráter (tenho dó de certas pessoas daquela época, certamente hoje elas têm um caráter fraco demais para perceberem o quanto estavam erradas). Entendi que temos que ser sempre nós mesmos, independente do meio social em que nos encontramos, porque se formos tentar ser outra pessoa, essa nova personalidade pode não ser bem aceita, e ai você será discriminado por alguém que nem vale a pena, que na verdade nem existe. Só não entendi porque Deus resolveu tirar meu avô de mim justamente quando mais eu precisava dele, e ainda mais no fim daquele ano em que o decepcionei, jogando fora todo o tempo e o dinheiro que ele investiu em mim naquele 1997.